quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

Evitando acidentes com motos.

No post anterior, O Cesvi Brasil (Centro de Experimentação e Segurança Viária) apresenta em seu site um estudo europeu que investigou 921 acidentes com motos. Como gostei muito, resolvi postar aqui também.
Fiquem com as conclusões do trabalho:
As motocicletas e motonetas têm conquistado, nos últimos anos, uma posição de destaque como alternativa de transporte individual e de ferramenta de trabalho. É o caso dos motofretistas (os motoboys), profissionais que se tornaram tão necessários e requisitados que, hoje, já é difícil encontrar empresas que não os utilizem muitas vezes na semana ou até diariamente. Essa opção fez com que a frota desse tipo de veículo aumentasse de 350 mil para 495 mil entre os anos de 2000 e 2004, representando atualmente cerca de 10% dos veículos registrados na cidade de São Paulo.

Mas esse aumento trouxe também aspectos negativos: um aumento de acidentes e vítimas envolvendo esse tipo de veículo, num ritmo até maior do que o aumento da frota. Em 2005, 20% dos mortos em acidentes de trânsito em São Paulo eram motociclistas ou passageiros de motocicletas, transformando a moto no veículo que mais produz vítimas na cidade. Pesquisa do IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) sobre custos de acidentes revelou que 71% dos acidentes com motos envolvem feridos que necessitam de cuidados hospitalares; no caso de outros automóveis, esta proporção cai para 7%.

A origem dos acidentes

Essa situação não é exclusiva de São Paulo, pois vem ocorrendo em muitas cidades brasileiras e do mundo. Na Alemanha, por exemplo, o número de fatalidades de motociclistas não foi reduzido em toda a última década, embora tenha sido reduzida a fatalidade de passageiros de carros. Esse cenário apresenta um grande desafio à sociedade: como reduzir esse quadro de acidentes e vítimas?

Para ir nessa direção, é importante entender como ocorrem esses acidentes.

O trabalho de acompanhamento de acidentes graves e fatais que a CET - Companhia de Engenharia de Tráfego - vem realizando em São Paulo detectou que há alta incidência de casos em que o motivo do acidente é o fato da motocicleta transitar em alta velocidade entre filas de veículos, parados ou em movimento, e ser interceptada por um automóvel que tenta mudar de faixa ou altera seu posicionamento na mesma faixa.

Estudo europeu

Apesar da realidade brasileira não ser semelhante à européia, é interessante conhecer também os resultados de um estudo detalhado sobre 921 acidentes envolvendo motos e ciclomotores, realizado em cinco países europeus - França, Alemanha, Holanda, Espanha e Itália.

São dados do estudo “MAIDS – In-depth investigations of accidents involving powered two wheellers”. A seguir, são apresentados sempre os principais itens de cada tópico. Os números fornecidos é a quantidade encontrada do tipo em cada 100 acidentes analisados.

Locais dos acidentes
54,3 - cruzamentos
38,9 - não cruzamentos

Outra parte envolvida no acidente
60,0 – automóveis
17,0 – via e objetos fixos
8,4 – caminhões, ônibus e utilitários
6,9 – outros veículos de 2 rodas

Principal fator contribuinte para o acidente
50,4 – motorista
37,1 – motociclista
7,7 – ambiente
0,7 – veículo

Tipos de falhas comuns
36,6 – motorista não percebeu a moto
13,0 – falha de decisão do motociclista, antes do acidente (como não diminuir ao se aproximar de um cruzamento)
11,9 - motociclista não percebeu o outro veículo
9,9 - falha de decisão do motorista

Localização das lesões mais comuns em motociclistas
31,8 – membros inferiores
(pés e pernas)
23,9 – membros superiores
(mãos e braços)
18,7 – cabeça

Efetividade do capacete na proteção da cabeça do motociclista (usado por 90% dos investigados, sendo que quase 68% usavam o fechado)
35,5 – preveniu lesão
33,2 – reduziu a lesão possível de ocorrer
16,5 – área não atingida

Efetividade da vestimenta na proteção do dorso do motociclista
45,4 – reduziu a lesão possível de ocorrer
19,2 - preveniu lesão
14,7 - área não atingida

Efetividade da calça na proteção das pernas do motociclista
50,2 – reduziu a lesão possível de ocorrer
12,0 - área não atingida
11,1 - preveniu lesão

Efetividade dos calçados na proteção dos pés do motociclista
37,6 – área não atingida
27,7 - reduziu a lesão possível de ocorrer
21,0 - preveniu lesão

Efetividade das luvas na proteção das mãos do motociclista
35,9 – área não atingida
23,6 - reduziu a lesão possível de ocorrer
19,9 - preveniu lesão

Conclusões

Algumas conclusões importantes desse estudo foram:

A maior parte dos acidentes ocorreu em cruzamentos.

As colisões ou choques desses veículos de duas rodas foram principalmente com automóveis, com via e com objetos fixos.

O fator predominante para ocorrência dos acidentes foi o ser humano, tanto os motoristas como os motociclistas: foram 88 de cada 100 casos. O ambiente apareceu em 8 situações, os veículos em menos de 1, e os restantes foram associados a outros fatores.

As principais falhas humanas observadas envolvem não perceber a existência do outro elemento antes do acidente (falha freqüentemente associada aos motoristas) e tomar uma decisão errada, como não reduzir a velocidade e avançar em um cruzamento.

As principais lesões dos motociclistas estão nos membros inferiores, superiores e na cabeça.

As vestimentas, calçados e capacetes foram efetivos para prevenir ou reduzir as lesões. Um dado preocupante foi a ejeção do capacete durante o acidente, principalmente por má fixação. Outro dado foi que choques com barreiras laterais nas vias, apesar de pouco freqüentes, provocam lesões sérias nos membros inferiores, na espinha ou na cabeça.

O passageiro do motociclista, apesar de contribuir pouco com a ocorrência dos acidentes, quando contribuiu foi por movimento repentino que provocou o desequilíbrio.

Atuação da CET

A CET está atuando em São Paulo com iniciativas de caráter educativo, como a campanha com faixas nas Marginais dos rios Tietê e Pinheiros, alertando os motociclistas sobre o risco maior de acidentes ao transitarem pelas pistas expressas, iniciada em dezembro de 2005. A comparação do volume de motocicletas em circulação nas pistas expressas e locais das Marginais entre abril de 2005 e março de 2006 indicou que houve redução de 6% nas pistas expressas no pico da tarde. Em junho deste ano, deverá ser lançada nova campanha, desta vez no corredor Francisco Morato / Rebouças / Consolação, orientando os motociclistas a transitarem pela faixa central das pistas e a não circularem entre faixas de trânsito.

Se você é motociclista...

Para os motociclistas em particular, destacamos:

Atenção à via e suas condições, principalmente àquilo que pode desequilibrar o motociclista, como pista molhada, faixas escorregadias, etc., reduzindo a velocidade e adotando maior cuidado nesses casos.

A importância de se frear adequadamente, tendo cuidado para não bloquear as rodas.Os fabricantes recomendam utilizar simultaneamente o freio dianteiro e o traseiro, lembrando que é o dianteiro que proporciona maior eficiência na frenagem.

Ser visto é fundamental para o motociclista; por isso, circular sempre com o farol aceso, vestimentas e capacetes de fácil visualização. Coletes e acessórios refletivos também são muito importantes.

Evitar a circulação entre filas de veículos.

Cuidado com a proteção individual, que, em um acidente, dependerá em grande medida do uso de vestimentas, luvas, calçados e capacetes adequados – estes últimos fixados adequadamente e, de preferência, do tipo fechado e com viseira. Lembrando que os fabricantes dos capacetes, certificados pelo INMETRO, indicam também um prazo de troca recomendável quando o uso é contínuo e o capacete não sofreu impacto - geralmente a cada três anos.

Orientar caronas sem experiência sobre como colocar o capacete adequadamente, posicionar-se no banco e apoiar os pés sobre os pedais, além de como se comportar durante o trajeto, segurando pela cintura e acompanhando as inclinações do motociclista.

Em relação à motocicleta, cuidado extra com os pneus, verificando sempre a banda de rodagem e a pressão adequada, a manutenção de todo o sistema de freios e de iluminação e sinalização; ou seja, farol, lanternas, luzes das setas e de freio.

Recomendações gerais

Em relação aos condutores em geral, motorista ou motociclistas, alguns cuidados sempre recomendáveis:

Não desviar a atenção do trânsito, reduzindo a velocidade e tomando maior cuidado quando as condições exigirem, como trânsito intenso, concentração de pedestres, etc.

Circular com maior cuidado nos locais com visibilidade prejudicada, como cruzamentos, em curvas, próximos a veículos de grande porte, etc.

Reconhecer e ser cuidadoso em relação aos pontos cegos do veículo, para frente e para trás, lembrando que o ajuste adequado dos espelhos diminui os pontos cegos traseiros.

Sinalizar sempre as manobras, inclusive mudanças de faixas.

Se beber, não dirija; se beber, não pilote.

Outros cuidados: respeito à sinalização e uma atenção extra nos cruzamentos, reduzindo a velocidade na aproximação e parando sempre que indicado ou necessário.

Penalidades

Por fim, lembramos que não cultivar hábitos seguros, além de contribuir para ocorrências de acidentes, muitos com seqüelas, pode trazer penalidades. Algumas infrações relacionadas à condução de motos, consideradas gravíssimas no Código de Trânsito Brasileiro, sujeitando o infrator à multa de R$ 191,54, sete pontos, suspensão do direito de dirigir e recolhimento do documento de habilitação são:

Conduzir sem usar capacete de segurança com viseira ou óculos de proteção, de acordo com as normas e especificações aprovadas pelo CONTRAN.

Fazer malabarismo ou equilibrar-se apenas sobre uma roda.

Trafegar com os faróis apagados.

Transportar criança menor de sete anos ou que não tenha condições de cuidar de sua própria segurança.

Li aqui e a página também traz dicas de segurança e boa convivência entre motos e carros no trânsito.
Não deixe de visitar, não custa nada.

Motociclista é o novo fumante

O prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, anunciou que, a partir do dia 11 de fevereiro, as motocicletas serão proibidas de circular nas vias expressas das Marginais do Tietê e do Pinheiros. A medida visa à redução de acidentes envolvendo motos nas Marginais: em 2006, foram 740 acidentes, dos quais dois terços aconteceram nas expressas (os dados de 2007 ainda não foram divulgados).

É claro que os motociclistas, especialmente os motoboys, não gostaram nada da decisão. As associações dos profissionais prometem reclamar, paralisar avenidas, a Paulista que se cuide. Como também não estão nada satisfeitos com a ameaça de proibição da simpática garupa: um projeto de lei do vereador Jooji Hato, do PMDB, sugere a proibição do transporte de passageiros nas garupas das motos. Kassab já disse que é a favor do projeto, que ainda vai passar por votação na Câmara.
Proibir a garupa? Esses vereadores não têm mais nada para fazer? Calma... o projeto se baseia na constatação de que muitos dos assaltos realizados no trânsito paulistano são feitos por duplas em motos: enquanto um dirige, o outro aponta a arma e nos leva os caraminguás. Sérgio Cabral, no Rio, defende a mesma coisa.

Quer mais? O Contran (Conselho Nacional de Trânsito) agora obriga o uso de capacetes com certificação do Inmetro. Ou seja, quem tem capacete sem o selo precisa colocar a mão no bolso.

Especialistas de trânsito e de legislação se dividem na defesa e no ataque a essas medidas, apontando ineficiência aqui, incompatibilidade com a Constituição ali, salvação da pátria acolá... O fato é que, pelo menos em São Paulo, cada vez mais o motociclista é visto com antipatia, tanto pelos motoristas de carros quanto pelas autoridades de trânsito. Os assaltantes vêm de moto; os motoboys nos chutam o retrovisor e nos entopem os ouvidos com suas buzinas, avisando ou ameaçando da passagem em alta velocidade pelos estreitos espaços entre as filas de carros; os acidentes envolvendo motoboys se multiplicam pelas vias paulistanas. Andar de moto começa a pegar tão mal quanto acender um cigarro no restaurante.

E o que o motociclista que respeita o trânsito, não assalta nem se arrisca, tem a ver com isto? Paga injustamente pelo mau comportamento dos outros, é claro.

Mas não pode alegar jamais que motocicleta seja um meio de transporte seguro. Enquanto os motoristas de carros são obrigados a usar cinto de segurança, o que segura as pessoas sobre os bancos das motos? A fé em Deus e na própria perícia, se tanto. Basta a encostadinha de um carro para que o motociclista seja atirado para longe, na direção de fraturas múltiplas ou do pior. Jô Soares, depois de seguidas quedas que lhe quebraram os dois braços (e olhe que ele caiu com a moto parada), desistiu das motocas para sempre com a seguinte conclusão: “Moto só tem duas rodas; é feita para cair”.

Alguém sem cinto dentro do carro está muito mais seguro do que estaria sobre uma motocicleta, pois o carro tem uma célula de sobrevivência no espaço destinado a motorista e passageiros, protegida por uma carroceria com tecnologia de deformação programada, que visa a reduzir tanto quanto possível a transmissão da energia do impacto de uma batida aos ocupantes do veículo. Num raciocínio lógico, se o tráfego de motos é permitido, o cinto no carro não deveria ser obrigatório.

Décadas atrás, a motocicleta era um símbolo de liberdade e inconformismo com os padrões estabelecidos. É provável que ainda hoje ela tenha este significado para muitos dos que compram suas motos pensando na viagem para o interior no fim de semana, a sensação do vento desimpedido por um pára-brisa. Mas a verdade é que, no violentíssimo trânsito dos nossos dias, tais sentimentos não tornam a moto um meio de transporte menos inseguro. Para o próprio motociclista e para os outros.

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Quer mais informações sobre acidentes com motocicletas? O Cesvi Brasil (Centro de Experimentação e Segurança Viária) apresenta em seu site um estudo europeu que investigou 921 acidentes com motos. Clique aqui e conheça as conclusões do trabalho. A página também traz dicas de segurança e boa convivência entre motos e carros no trânsito.
por Alexandre Carvalho dos Santos
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quarta-feira, 16 de janeiro de 2008